quinta-feira, fevereiro 04, 2016

RECUSA, com uma epígrafe de Countee Cullen





RECUSA


 “We shall not always plant while others reap”
Countee Cullen(New York, 1903-1946)


Nem sempre vamos plantar, para outros colherem
Nem sempre deitar árvores abaixo, para outros 
entalharem na madeira as formas
dos deuses ou demónios que trazem nos dedos
Não será para sempre
que vamos levantar do mar as pérolas
para outros costurarem a beleza
Nem sempre ver
como a Esfinge, o que outros não conhecem
Chega de construções para outros fazerem tabula rasa.

04-02-2016
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terça-feira, dezembro 29, 2015

ORAÇÃO FEITA PARA UM ESPELHO






Graças te dou, a Ti, que estás desse lado
porque não sou como os outros, A minha ganância
é comedida,  A minha  justiça é de pedra
Não sou adúltero, A não ser comigo mesmo
e com a minha beleza.  Jejuo
para fazer compreender ao pobre que a fome
nos disciplina o corpo, Dou o dízimo de tudo
dos meus dez dedos, um
é teu e serve para apontar o erro alheio, Dos outros
não há ninguém que não seja publicano.

29-12-2015

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segunda-feira, dezembro 21, 2015

Santo Natal com um poema para os Amigos


PARA ENCONTRAR A CRIANÇA ENVOLTA EM PANOS

Deus pôs no céu a mão a guiar uma estrela
No meio de lugar nenhum
Que é o espaço indecifrável da noite
A luz era o único lugar visível, não se via
A mão que a guiava, foi com surpresa
Que a viram estacionar os anos-luz
Sobre um discreto estábulo de Belém.

18-12-2015

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quarta-feira, dezembro 09, 2015

PARIS AT NIGHT, LONELY WOMAN WAITING






Os anjos têm esquinas onde encostam as asas e o silêncio
da sua solidão. São anjos que esperam
 quem possa levar o seu corpo, e o seu coração
sozinho é uma sombra dentro do peito.
Anjos que não recusam as suas asas, o sonho de um dia
que virá e serão alegres como o ser feliz, quem disse
que os anjos não têm esquinas na noite
com a escuridão iluminada.

09-12-2015
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(Arte: Fotografia de Adolfo Kaminsky, 1946)

segunda-feira, dezembro 07, 2015

NOCHEBUENA







Tenho de admitir que as minhas rótulas não suportam
senão penosamente as subidas, o peso da leveza do  meu corpo
nas duas pernas já não se debruça facilmente 
para apanhar o que os dedos não enlaçam,  nem sobe
já aos bancos para colocar cristais na árvore de natal. A última
estrela que pus, perdeu-se no buraco negro dos tectos
das casas que habitei,  mais uma
Noite de Natal com os netos por Continentes divididos.

05-12-2015

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segunda-feira, novembro 23, 2015

SALMO 137 DO SÉCULO PASSADO





Sentávamo-nos junto aos muros do gueto de Varsóvia
e chorávamos com uma estrela ao peito, nas sombras
dos casacos rotos, pensando
que éramos o povo escolhido. Deus
estava em Jerusalém e lá pendurámos nossas preces.
Os que nos tinham feiro prisioneiros pediam-nos
que cantássemos com a nossa boca
cheia de pão negro, aqueles que nos haviam de destruir
queriam a nossa alegria. Mas como era possível
que entoássemos outro cântico senão um kaddish
pelos mortos? O canto do Senhor em terra estranha.
Se tu, Senhor, te esqueceres de nós, seremos harpas
partidas e as nossas cinzas voarão pelos ares
como um silêncio.

10-10-2015

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