quinta-feira, Agosto 21, 2014

O SEGREDO



Poema de Charles Bukowski


Não se incomode, ninguém tem
a mulher mais bela, não é verdade, e

ninguém tem qualquer estranho e
escondido poder, ninguém é
excepcional ou maravilhoso ou
mágico,  apenas parecem ser
é  tudo uma fraude, cada um com a sua,
não compre nem acredite.
o  mundo está cheio de
biliões  de pessoas cujas vidas
e mortes são inúteis e
quando uma dessas se distingue 
e a luz da história  brilha
iluminando-a, esqueça, não é
o que parece, é só
outra ficção para enganar tolos
novamente.

não há super-homens, não há
mulheres formosas.
pelo menos você pode morrer
com
esta verdade
esta é a sua única
vitória.

©  Versão minha


sexta-feira, Agosto 15, 2014

NA ÚLTIMA ILHA


                    
“ O que eu quero é ser eu a lutar e a apanhar o meu peixe.”
Ernest Hemingway ( em "Ter ou Não Ter")


Desde que chegara a Angela Street, depois de abandonar a sua própria velhice rotineira na Europa, que saía de casa todas as manhãs muito cedo.

Key West no extremo sul da Florida é o último lugar da América, vai-se para ele como as abelhas saltando de flor em flor.
Ele são algumas “ilhas” até chegar lá, um mar de águas largas, e quase transparentes, mas quando se aporta na cidade, o ar levemente salgado, amarra o forasteiro, como a uma velha escuna.
Quando chegou, na tarde em que Miami ficara para trás, e ainda mais longe o seu país,  ainda sentiu uma nostalgia a humedecer-lhe os olhos.

Agora, todas as manhãs, sem pensar já nisso, saía para estar junto do mar. A sua respiração era, como dizer, era marinha.
Isso, percorria as ruas desde a Angela até à William, para ver o que se passava no Schooners Bar, mais para lançar os olhos a alguns veleiros e ganhar ideias , depois descia ao Southermost Point.  Voltava pela Whitehead St., porque o seu bar era outro.
Sentava-se, com o gin, uma pedra de gelo que parecia um iceberg,  no Green Parrot.  Gostava do nome e da sua alusão aos trópicos.  Olhava para o copo e parecia-lhe sempre que a rodela de limão era um jangada.

 Ia para junto do mar. Era a sua companhia, ia tocar-lhe, sentir as mãos cheias de água do Golfo. Derivava, por vezes, os olhos para o lado da ilha de Cuba, mas a distância era ainda uma névoa imensa. 
Todas as manhãs levava blocos e lápis e as notas sucediam-se manuscritas, quem o visse, deveria perguntar-se porque não usava os meios modernos.
Mas o lápis era telúrico, estava ligado ao solo, como se quisesse ter sempre os dedos sujos de carvão. Escrevia com um minério que ainda trazia calor à humanidade.

Todas os dias almoçava e jantava pelos bares da praia, umas vezes na Smathers Beach, outras na Higgs Beach Dog Park. Não dava por viver sozinho.
  
Embora não o admitisse, esperava, sem nada porém que lhe marcasse a jurisdição da espera. Andava perfeitamente descansado, porque deixava um papel, o mesmo gesto de há anos, pregado na porta: “Estou no Green Parrot, se chegarem sem avisar”.

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sexta-feira, Julho 18, 2014

MADRID, 1936



Com um fuzil apagado nas mãos
morrer em Madrid, as casas sólidas
a caírem do pó,  os pássaros
caídos das janelas, para morrerem
em Madrid, os filhos
presos aos cabelos das mães
Morrer em Madrid
com um cravo roto nos olhos.

18-07-2014

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quarta-feira, Julho 16, 2014

DEVASTAÇÃO, Inédito de Rui Miguel Duarte



"And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief"
“E a árvore morte não dá abrigo, nem alívio vem do grilo”
T. S. Eliot, de "Waste Land", secção I v. 23


as árvores escondem o que há de cinza
avessas ao vulgo, ao desenfado profano
só lhes dava o sol, de manhã,
e têm frio
(quanto mais lhes dá mais frio têm)

não procures indagar para onde
te eleva o voo da locusta
para onde a mancha dos grilos
que do céu galopa sobre a terra
eles não adivinharão  nada do mistério
do dia e da noite,
ou o marulhar potente do exército de pedras

só um vento vermelho
que te descascam as folhas até à solidão
até ao vazio das palavras

o que vês do alto da tua copa
é o oceano seco que tuas raízes jorram
roídas

ainda que o fruto minta, mente
o rio do olvido vem reclamar
os fardos das árvores: que dispam
os seus troncos
assim entoarás louvores à nuvem que
passa

Rui Miguel Duarte
15/07/14


quinta-feira, Julho 10, 2014

FERIA DE SAN FERMÍN




É terrível a sombra de toiros negros
a rolar pelas paredes um rumor como o chão em pânico  
é terrível
como se tremessem as janelas das casas hirtas
e o medo nas vozes tremesse é terrível
 a tarde incendiada por laços vermelhos
no pescoço ao vento que os toiros negros deixam
ao passar é terrível cada corpo a cingir-se contra as paredes
é terrível as costelas a baterem umas nas outras
castanholas partidas é terrível
com a respiração do toiro sobre o corpo.

10-07-2014
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terça-feira, Julho 08, 2014

Inédito de José Brissos-Lino




Sento-me num livro

Sento-me num livro e espero as contingências 
do sol da manhã
percorro-lhe a alma vagarosamente
com a gentileza de um piscar de olhos 
ao virar da página
e depois custo a despegar os olhos
e o sentido 
da corrente de vida
até que desague 
na última capa.

7/7/14 
© José Brissos-Lino