quarta-feira, abril 13, 2016

À Mesa com o Pródigo

Murillo



Já estava sentado à mesa, com os olhos
Do meu pai a verterem alegria, o vinho
Dos odres novos a brilhar no banquete
O bezerro a sair do remoinho das chamas
Depois de anos a andar sem sandálias
E com vestes festivas e um vestígio
Real no dedo, apontava a saudade
Do meu coração para a porta, esperava
Que entrasse com o sol crepuscular
O meu irmão, nos meus olhos
Eu dizia palavras de amor, enquanto
O silêncio da porta deixava passar
A lua plena.


13-04-2016


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sábado, fevereiro 27, 2016

ULISSEIA







O Regresso de Ulisses

Regressa Ulisses  
como proa do seu barco, corta
não as águas, mas o voluptuoso mistério
que passa pelo vento, ainda
que as sereias estejam longe


Ulisses está de pé, de costas
para Nausícaa, para o sol lento que soltava
ouro dos cabelos de Nausícaa
Outra mulher o espera
a fiar e a desfiar o tempo.


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quinta-feira, fevereiro 04, 2016

RECUSA, com uma epígrafe de Countee Cullen





RECUSA


 “We shall not always plant while others reap”
Countee Cullen(New York, 1903-1946)


Nem sempre vamos plantar, para outros colherem
Nem sempre deitar árvores abaixo, para outros 
entalharem na madeira as formas
dos deuses ou demónios que trazem nos dedos
Não será para sempre
que vamos levantar do mar as pérolas
para outros costurarem a beleza
Nem sempre ver
como a Esfinge, o que outros não conhecem
Chega de construções para outros fazerem tabula rasa.

04-02-2016
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terça-feira, dezembro 29, 2015

ORAÇÃO FEITA PARA UM ESPELHO






Graças te dou, a Ti, que estás desse lado
porque não sou como os outros, A minha ganância
é comedida,  A minha  justiça é de pedra
Não sou adúltero, A não ser comigo mesmo
e com a minha beleza.  Jejuo
para fazer compreender ao pobre que a fome
nos disciplina o corpo, Dou o dízimo de tudo
dos meus dez dedos, um
é teu e serve para apontar o erro alheio, Dos outros
não há ninguém que não seja publicano.

29-12-2015

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segunda-feira, dezembro 21, 2015

Santo Natal com um poema para os Amigos


PARA ENCONTRAR A CRIANÇA ENVOLTA EM PANOS

Deus pôs no céu a mão a guiar uma estrela
No meio de lugar nenhum
Que é o espaço indecifrável da noite
A luz era o único lugar visível, não se via
A mão que a guiava, foi com surpresa
Que a viram estacionar os anos-luz
Sobre um discreto estábulo de Belém.

18-12-2015

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