quinta-feira, janeiro 22, 2015

UMA BUCÓLICA MODERNA NOS ANOS 50


Arte: Uma Aldeia (Piodão)



Na pura fealdade dos campos que ficavam
por detrás dos prédios, ali
um circo trazia do ar a tenda enorme e os leões
suspiravam por África? ou nesse tempo talvez
os tigres por Emilio Salgari, eu
vivia uma história de infância sem grandezas


Logo que o circo levantasse a tenda, as janelas
do meu quarto ficavam no escuro
E agora aqui estou, um
Género de Prometeu em luta contra a águia
das memórias, com outro centro de beleza
para onde dirigir os olhos, os poemas


alguns estão no meu coração, dentro
do bolso num caderno, esperam desde a
madrugada, outros passeiam na rua
no ar azul, ou em casa nos livros de alguns
amigos,  até na fealdade dos campos,  ali
por detrás dos prédios, onde nada acontece.

21-01-2015
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segunda-feira, janeiro 05, 2015

ALMOÇO CAMPESTRE


(Edouard Manet, "Almoço na Relva", Louvre, 1863)


Tal como Manet os fez, um mundo perfeito
sentados sobre a relva, numa relação directa com
o solo, um pouco menos mortais
do que a flor que mal nasce morre
sob a sombra das árvores, pousados como pássaros
distribuídos do alto cume azul, enchem os olhos
da fragrância de um corpo nu, eles
contudo indiferentes, conversam como dois
discretos cavalheiros que esperam o crepúsculo
cair como o fresco véu da tarde.

01-01-2015
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segunda-feira, dezembro 15, 2014

O CALVÁRIO






Morreu esta tarde, por três dias,
às três num monte à beira da cidade.
Inclinou o seu espírito às últimas palavras
que seus lábios entregaram aos ouvidos
dos homens e de Deus, da mãe
não chegariam as mãos para o tirar da cruz.
Do lençol de linho de José de Arimateia
-só é certo que lhe deu o sepulcro- não se sabe,
qualquer teologia que diga que ao morrer
às três da tarde, por três dias, tinha nos lábios
um sorriso, sabemos pelas feridas da morte
que não é verdade, ninguém
morre pelo ódio do seu povo e sorri.
Morreu com o tempo marcado, o relógio
do sol marcaria na porta do sepulcro
a manhã de sábado,  depois outra manhã viria
limpar da noite as sombras, para que o branco
Corpo intocável mais brilhasse.

14-12-2014
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sexta-feira, novembro 21, 2014

A VIRGEM DE LEONARDO




Tem um par de olhos  quase obscenos e um sorriso
Enigmático, onde tocam
Os pássaros desocupam os ramos, despem
Os nossos ouvidos de ressentimentos
Sobre o dia que passa

Rasgam a carne, tiram o coração do sério
Do seu batimento
Absorvem
Todo o ar à nossa respiração

Sob a ausência do seu par de olhos e do sorriso
Quase obscenos
Quando se afastam morremos
Em silêncio, sem memórias.

21-11-2014

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sábado, novembro 15, 2014

a desimportância de ser poeta


(talvez dedicado a Manoel de Barros, 1916-2014)


Que me perdoem os apanhadores
das grandes frases, os filósofos
de banhos de areia na grande praia
argelina de Camus, que me perdoem
os pregadores massivos de Facebook

Os apanhadores de estrelas
nas poças de água que a noite não consegue
perturbar, prefiro estes a todos os outros

E ainda fico extasiado com o chamamento
da minha gata, sentada com os olhos
fixos a olhar-me e a miar as suas próprias palavras
para eu a seguir  e vê-la comer – dou comigo
a entender  sua linguagem, e por mais
que me digam o contrário, só o Homem
é selvagem.

14-11-2014

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sexta-feira, outubro 31, 2014

A casa em socalcos



(sobre fotografia de Margarida Gama)


Atravesso a casa e o quarto da esquerda esconde
as marcas sobre as quais houve um móvel, teias
desabitadas no quarto da direita,  apalpo
a noite,
onde já nem o silêncio entoa,  atravessa-se
a casa,  a casa do outro lado
prolonga-se em socalcos.

18-10-2014
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terça-feira, outubro 14, 2014

ALGUMAS COISAS QUE FIZESTE



Já dançaste em círculos à volta do bezerro, ébrio
do ouro a escorrer pelos teus olhos,  alguns
dos teus haveres empenhados  no caminho
rumo a Canaã; sentiste as tábuas da lei partidas
contra o teu coração, mesmo assim  colheste
dos arbustos sem nome o mais belo pão divino;
bateste numa rocha
e bebeste a água represada desde o dilúvio; viste gigantes
à porta da terra do leite e do mel, já longe
do Egipto começaste a ter a noção da saudade,a falta das cebolas
e da carne e olhavas para trás, com os pés no chão
andaste quarenta anos no deserto.

13-10-2014
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