terça-feira, abril 14, 2015

BOTTICELLI





Nua, de pé, com o corpo de antigo Paraíso
Guarda com cinco dedos
Um  seio e a janela para vida, rosto
De menina que substitui o sol, o fogo
Nos cabelos, e os dois olhos suaves
Com um olhar que não foge para longe
Sereno, que o vento de Zéfiro não perturba
Vénus que emerge de uma flor do mar
Bordado pela espuma.

12-04-2014
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quinta-feira, abril 02, 2015

PILATOS DIRIGE-SE AOS JUDEUS - IV







Eis o homem
que chegou aqui pelo valor mais baixo
que às vezes tem o beijo, o da traição
Este que chegou a golpes de chicote pelo corpo
e pelas faces em silêncio que oferecia
às bofetadas. Este que chegou aqui 
pelo crime de ser Deus
com uma cruz difícil sobre as costas.

02-04-2015
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domingo, março 29, 2015

BEFORE THE FALL








“A rebeldia –e o fruto”
John Milton(“Paraíso Perdido”)


 O fruto desenhava-se no ramo, o princípio
da esfera, maçã ou outro pouco importa,
o volume era o da esfera, permanente
circulo da vida para a morte, o fruto
preso  à gravidade da ciência
do bem do mal da tristeza de saber.
O fruto desenhava-se no ar fresco da tarde
e na noite de prata
mais para os olhos famintos do que os lábios,
até ao coração da mulher escarlate.


29-03-2015

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sexta-feira, março 20, 2015

DOM QUIXOTE SEM REALIDADE




 “e não durmo, abrasado, e janto apenas nuvens”
Carlos Drummond de Andrade


Vive, ainda, num lugar da Mancha, de cuja
Imortalidade só um nome resta, o Quixote
Só a lança e a espada são reais nas suas mãos            
Metal a balouçar no vento
E Rocinante
No qual cavalga toda a Espanha


Cinquenta anos, seco de carnes, rosto
Enxuto, olhar rijo contra moinhos
Vara de porcos e odres de vinho
Mulheres?  Só uma
Dulcinea,  que no coração do Quixote
O tropel acalma das vitórias.


20-03-2015

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quinta-feira, março 12, 2015

CALEB



“Há anos que escrevo o mesmo poema”
J. T. Parreira

Sou ainda o mesmo que fui outrora
ainda hoje os mesmos olhos
olham por dentro das mesmas pupilas
e procuram o mesmo infinito

há quarenta anos que sonho
o mesmo sonho
que este passeia pelo monte e lhe cria
um nome, Hebron,
e o soletra letra a letra,
como o nome de um amigo, com
o mesmo suspiro em silêncio

há quarenta anos que espero
então era soldado e lavava
a espada no sangue de gigantes
hoje lavo-a na chuva
que se acumula no vale

sou o mesmo rosto furtivo
à viragem do vento e recalcitrante
à passagem dos dias

há anos que escrevo o mesmo poema
que fala de promessas e de campos largos
e montes para conquistar
a mão do Senhor abrindo a minha
a pulso no papiro

os cabelos que hoje são brancos
já o eram então há quarenta anos:
embora mais longos

© Rui Miguel Duarte
6/03/2015

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

MONUMENTO COM UM NOME





 Caminhar por Auschwitz  é andar no espaço
 Conseguido pela morte.
 No meio de barracões esculpidos de quietude
 Enganadora, a neve, falsa, se estendia
 Como roupa suja no chão.
 Não havia escadas para subir, no inferno tudo
 Era devolvido em cinzas. Sentem-se hoje
 Olhares perdidos ainda no passado. Um gato
 Com a sua inesgotável infância
 Alheio aos reflexos da vida.

16-02-2015

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Foto: Kacper Pempel/Reuters

sábado, fevereiro 07, 2015

POESIA PARA TRATAR FERIDAS


1.
Passar a ferro

Na “ars poetica” inicial do seu livro recente de poemas, João de Mancelos(JM) confirma o pensamento de Adolfo Casais Monteiro sobre a poesia ser cosa mentale, sem raízes no inconsciente.  A Poesia pensa-se, é acto consciente.
  Diz JM que “poema a poema” passa a alma a ferro:
os pequenos incidentes dos dias
não são mais do que dobras e vincos.
poema a poema, passo a alma a ferro.

Salvo melhor opinião, resolve problemas interiores, ontológicos mesmo,   através do poema que (se) escreve.

No presente livro, das Edições Colibri, Lisboa , 2014, JM  serve-nos um conjunto de 62 poemas límpidos, de uma claridade sem poeiras, mesmo aquelas que os raios solares podem salientar.

A simetria formal de cada poema, na primeira parte do seu livro, dispostos no papel graficamente sob a forma de tercetos, dão-nos essa medida da roupa, quero dizer do texto, desenrugado, bem engomado sem dobras nem vincos.

A forma aí é fundamental para dar uma estrutura a cada poema de texto ordenado, eximiamente ordenado, onde as palavras correm sem obstáculos
para usar a imagem do ferro de engomar.

Convém dizer, antes de escolher e salientar  três desses poemas da primeira parte do livro e outro da segunda, que em todo o caso estamos perante poemas de amor, de uma paixão contida, escritos de uma forma disruptiva quanto a esse amor.
Todavia, o autor não parece alimentar o amor, nem a paixão, nalguns casos – leia-se poemas- rasga-os mesmo.

Alguns exemplos breves:

vivíamos trocando beijos envenenados/ e discussões em círculos/(…)// só tive saudades do ódio, / de que tanto precisava/ para poder dormir em paz( do poema “há mais de quinze anos”)

“não me procures, amor, / nos  lugares do desencontro: / estações, aeroportos, hóteis” ( do poema “nowhere”)

“hóspedes um do outro, / o seu amor consistia / no ranger das molas de um colchão.” (do poema “havia um casal”)

“só escutara a palavra amo-te numa canção da rádio” (do pungente poema sobre um suicídio “limbo”)

Claro que também existem poemas de perfeito amor, aquele que se diz em metáforas e com reflexos tão rápidos que podem fugir-nos – se concordamos com Freud quando reduziu a criação artística a um “reflexo” de condições fisiológicas - , a verdade é que são instantes que quase nos escapam, os seguintes:

“às vezes, depois do amor, / quando feras dóceis rondam o nosso sono”, “às vezes, quando me encosto à nudez, exausto”, “às vezes, quando me inventas um nome” (do poema “depois do amor”). Mas, quiçá os dois melhores poemas de amor do livro sejam estes:

três da manhã

o que a noite traz à costa é inesperado:
o teu corpo tão perfeito quanto um búzio
na primeira praia.
(…)
amamo-nos até os nós do sono desatarem
e dentro de ti o oceano exausto
chamar o teu nome secreto.
_____________________________________

com as mãos manchadas de azul

regressarás a mim com as mãos manchadas de azul
e os pés sujos de tanto correr mundo,
ignorando que aqui só ardem ruínas sem mãe.
(…)
pedirás que te ame, riso a riso, numa cama de folhas,
mas o outono passou há muitos anos,
e tem a idade da noite quando chove.

2.
Três poemas para a história da Literatura em geral

Não é para admirar que um poeta doutorado em Literaturas Comparadas e Norte-Americana, escreva sobre poetas de outras latitudes literárias.

Um poema como “pedidos de empréstimos”, abre-nos um caminho de reflexão sobre o que Harold Bloom escreveu acerca da “angústia da influência” e dos poetas precursores. 


“toda a noite, as vozes de poetas mortos
Me emprestaram versos e canções,
Numa insónia ardida até de madrugada.
whitman e pessoa, os mais insistentes”


O próprio poema que dá título ao volume “a sombra do pó”  ( “as memórias entram com o vento/ sob a porta, escorrem pelas vidraças, / pingam avulsas no lago”), sobre o pó do tempo no sentido do passado e das suas recordações/memórias, não deixa de me lembrar o romancista John Fante, americano,  e o seu “Pergunta ao Pó”.

Sylvia Plath aparece num belíssimo terceto que é uma fotografia da malograda quanto bela autora de “Ariel”: 

“quando nem os médicos nem os loucos nem os santos
a escutavam,
ela negociava o silêncio com as aves mais azuis.”

Finalmente, um poema sobre Emily, a Dickinson. E neste as metáforas assumem papel estruturante para nos abrir caminho à poética da estranha poeta norte-americana de Amherst.
“Aranha laboriosa” que tece poemas “em fios de noite”, versos que foram “um intranquilo fogo”, que amou homens e mulheres “escondida entre as palavras.” Poeta da solidão, Emily, como poeta de uma certa solidão ordenada em poemas, a de João de Mancelos neste seu livro de poesia para tratamento de feridas.  

Aveiro, 05-02-2015
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