sábado, junho 13, 2015

POEMA DO MEDO

“E não quis que me visses nu. Então escondi-me.”
Adão



Tive medo e regressei
para trás das árvores, das folhas
entrevi Teu rosto, não quis que me visses nu.
Então escondi os meus ouvidos,
onde a Tua voz não chegasse, ou chegasse
suavizada só pelo amor à natureza,
tive medo e quis regressar ao pó.

16-03-2015

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terça-feira, junho 09, 2015

Apenas o Salmo 8 escrito por um simples poeta de província



Não se pode averiguar o peso quântico da eternidade
Na oficina celeste, todos os anjos reunidos
Não sabem a mais leve partícula do nome Deus
Não há espaço no Céu para conter Deus
Todo o Céu fica aquém, só as Suas mãos
Que fazem e desfazem astros estão para lá de tudo
O que nos adormece em segurança quando olhamos
O Espaço, quem somos nós para limitar Deus ao quarto
Onde dobramos os joelhos e citamos várias vezes a nossa vontade
E contudo
Não sendo o Seu corpo que habita nos templos
Feitos pelas mãos dos homens
Só o Seu olhar  agrega-nos a todos como um alvo
Do Seu Amor no fio do horizonte.

09-06-2015
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sexta-feira, maio 29, 2015

NOTÍCIA DO CERCO DE BIZÂNCIO




Assim foi que, estando a cidade sitiada,
Mais do que os baluartes guarnecidos,
Era urgente distinguir o sexo
Dos anjos, a forma exuberante
Das suas asas, se o seu corpo
É o da mulher jovem com um busto fresco
Ou o do mancebo com músculos rectilíneos.
Assim foi
Quando era preciso que rezassem com os joelhos
Dobrados, os monges discutiam
Com a harpa do sexo escondida nas cabeças.

20-05-2015
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quinta-feira, maio 07, 2015

FELIS CATUS LUDENS



Põe o mesmo ardor para brincar
com o rato e com a folha de prata”

György Somlyó (Hungria, 1920-2006)



Em busca da felicidade da caça, o gato
Brinca com o papel de prata, o brilho
Apela nele instintos de beleza, como
Brinca com a mosca, é um ritual
De existência,  dar movimento a tudo
Mesmo com leves toques
O que está parado move-se.

Um frasco pode partir o perfume interior
Em mil asas pela casa, de cima da mesa
A maçã rola imprudente para o chão,
Um sofá muda de aspecto e mostra-se
Na sua nudez por dentro,
Os gatos repetem tudo,  podem repetir
Até sete vezes a vida.

07-05-2015

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sexta-feira, maio 01, 2015

A PROCURA DO AMADO NO CÂNTICO DOS CÂNTICOS




A escuridão fecha os nossos olhos, a névoa
Às vezes humedece a tristeza das pupilas,
O nosso coração cansa-se
Embriagado do seu próprio vinho.
Subimos desertos encostados ao seu peito,
Para onde foi o nosso amado? Que rumo tomou,
Os lírios foram a sua fronteira? Ou as estrelas
Mais altas cobriram-se à sua passagem?


Que faremos sem o nosso amado, somos fiéis,
Nossas  mãos não tocaram outras mãos, os lábios
Nunca tiveram outro nome, nossos ouvidos
Outros canteiros de jardim senão as suas palavras,
Os nossos cabelos outro odor. Não abriremos
Mais romãs à tua espera. Vem!
Os companheiros estão atentos
Já limpamos as nuvens que empalidecem os telhados.

15-03-2015

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segunda-feira, abril 27, 2015

É TERRÍVEL SER O SENHOR



"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós"
Jo. 1,14


É terrível ser o Senhor e estar sentado à mesa
entre os homens, subir a crosta da terra
até ao cume onde já foram contados outros
malfeitores, andar entre leprosos com a carne
diáfana e pura de ser Deus, partilhar
de todas as manhãs como artesão do sol
É terrível ser o Senhor entre cegos
e andar eterno no limite temporal.



14-04-2015
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terça-feira, abril 14, 2015

BOTTICELLI





Nua, de pé, com o corpo de antigo Paraíso
Guarda com cinco dedos
Um  seio e a janela para vida, rosto
De menina que substitui o sol, o fogo
Nos cabelos, e os dois olhos suaves
Com um olhar que não foge para longe
Sereno, que o vento de Zéfiro não perturba
Vénus que emerge de uma flor do mar
Bordado pela espuma.

12-04-2014
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