domingo, Abril 13, 2014

GAUGUIN CHEGA À POLINÉSIA




Olhos postos nas mulheres
às cores
tu virás do mar
pacífico nos teus olhos o desejo

verás o ritmo das folhas dos coqueiros
 que remam contra o vento
a água abundante
que refresca o sol nos corpos

à noite
tu virás para ver perto do chão
verdes, escuras e tangíveis
as únicas estrelas.


13-04-2014

©

quarta-feira, Abril 02, 2014

Dia Mundial do Livro Infantil: Para Desenhar Uma Flor


PARA DESENHAR UMA FLOR

Primeiro faz-se subir da escuridão,
em que as raízes dormem,
um caule, depois
conhecemos
os passos que em silêncio dá, primeiro
um botão
que já revela o ponto ómega. A seguir,
como um lápis lazúli que esconde a mão invisível,
abre-se uma corola e com cuidado,
mesmo que as folhas anoiteçam,
vai-se desenhando a claridade da flor.

2/4/2014
©

segunda-feira, Março 31, 2014

[OLHO PARA O MISTÉRIO DA SOMBRA CONHECIDA]


"E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior"
Álvaro de Campos


Olho para o mistério da sombra conhecida
Fica para trás o navio como mistério parado
No espelho do rio, ao fim da tarde
O dia começa o descanso da pedra
Da  vida marítima, da Distância
De onde se vem, o barco trouxe a névoa
De quem chega, que se dissipa
Numa saudade cumprida, olho
E o meu olhar é inocente
Entre a sombra conhecida, e o mistério
do rumor oleoso do Tejo, tão inocente
que meu olhos não sentem barco nem cais
só a alegria parada do fim da tarde
Por não saber que havia ilhas e grandes mares
Todos ligados entre si porque a Terra é redonda.

30-03-2014

© 

segunda-feira, Março 24, 2014

AUSÊNCIAS




O silêncio já não é igual
àquele de quando está gente em casa.

Esse silêncio não tem forma de corpo e nem ocupa
o ar quando passamos, não estamos
presos à sombra, sentados, e o gato,
imerso no seu sono,  reconhece-o
e não corre na alegria das patas pelos quartos.

24-03-2014
©

  

sábado, Março 22, 2014

RENOIR


Não há nas naturezas-mortas de Renoir
um fruto falso, nos nossos olhos escondido
cresce o desejo de morder

pêssegos, maçãs e a exuberância do pão
mesmo assim entre migalhas
no Cabaret de la mére Anthony

e vemos num instante o fruto apetecível
diante da nudez rotunda das mulheres de Renoir
como a luz, que voa numa asa de seda de libélula.

22-03-2014

© 

sexta-feira, Março 14, 2014

OS PESSEGUEIROS



“Onde pessegueiros pequenos estão em flor - tudo é pequeno lá (…) é a razão porque o assunto me atraiu. " 
Van Gogh


Os pessegueiros de Van Gogh esperaram
que a neve fosse deixando o silêncio
do branco tomar forma
de pequenos sóis, com os ramos
abraçados
Então os pessegueiros de Van Gogh
começam a ser árvores sonoras.

14-03-2014
©


quarta-feira, Março 05, 2014

A MULHER DE SAMARIA


(Annibale Carraci, 1560-1609)



Não é qualquer uma. É uma mulher ao meio-dia
De olhos no chão, equilibrando o cântaro
Frágil
Cada lágrima que esconde

É uma mulher que teve abraços
Beijos na sua face morena, escondida
Em silêncios

Não é qualquer uma, é uma mulher
Que conhece bem o seu rosto
No espelho triste do fundo do poço

É uma mulher ao meio-dia
Que resiste, mesmo que isso a torne
Invisível, para que outros não tenham sede.

2-03-2014

©